No Dia do Professor de 2026, a CNN Brasil ouviu Ivan Pereira, CEO da Mind Lab e especialista em educação, sobre o desgaste dos docentes na relação com as famílias. O tema central foi a autoridade pedagógica, que exige respaldo da escola e apoio institucional por parte dos gestores.
A reportagem analisa os dados da 3ª edição do Relatório Anual de Saúde Mental & Bem-Estar Escolar, do Great Place to Study Brasil, com mais de 5 mil docentes da rede privada.
Segundo o estudo, um a cada quatro professores da rede privada de ensino apontam a relação com os pais como principal ponto de desgaste. O índice chega a 37,6% na educação infantil. Além disso, 27,5% dos profissionais dizem não conseguir descansar adequadamente e 26,8% relatam desgaste contínuo com a profissão.
Por que a autoridade pedagógica do professor está sob pressão?
A principal origem do atrito é o questionamento à autoridade pedagógica. Frequentemente, os professores são a “linha de frente” do contato com os pais e precisam lidar com reclamações que têm pouco embasamento técnico ou teórico.
Há um efeito comum nas escolas particulares brasileiras:
- Famílias consomem conteúdos rasos nas redes sociais;
- Questionam os professores, com a sensação de que têm domínio sobre determinada abordagem ou disciplina;
- Se há alguma divergência com a abordagem pedagógica da escola, é o professor quem recebe as reclamações.
Isto torna o ambiente mais estressante, o que se reflete diretamente no clima escolar e no trabalho docente. Nas palavras de Ivan:
“Professor que trabalha com medo para de ensinar e passa a se proteger. Evita a avaliação mais exigente, a conversa difícil e a decisão pedagógica que pode gerar reclamação. Quem perde é o aluno. Cada contestação isolada parece pequena, mas, somadas, transformam a sala de aula num ambiente de vigilância. Autoridade pedagógica não é autoritarismo. É a legitimidade técnica de quem foi formado para conduzir a aprendizagem, e ela não se sustenta sozinha”.
Mais pesquisas corroboram com essa percepção. A Talis 2024, conduzida pela OCDE e aplicada no Brasil pelo Inep, identificou que 50,2% dos professores dos anos iniciais relatam estresse ao responder às preocupações de pais e responsáveis.
O desgaste e a saúde mental docente entrou até na agenda de saúde e segurança de trabalho, por meio da Portaria nº 1.419, de 27 de agosto de 2024, que alterou a NR-1 e incluiu os riscos psicossociais no escopo do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Isso exige que as escolas identifiquem e avaliem fatores de risco e adotem medidas preventivas.
Como a escola pode proteger a autoridade pedagógica do professor?
Gestores devem atuar de maneira ativa e intencional para reduzir a pressão das famílias e o desgaste dos professores. É necessário inverter aquela lógica de que “as famílias pagam, por isso têm sempre razão”.
A resposta de Ivan começa pelo planejamento do ano letivo:
“Construir um acolhimento institucional seguro e definir papéis claros desde o início do ano letivo são passos importantes para transformar esses atritos em cooperação, e não só quando chega a primeira reclamação.”
Desde os primeiros dias, as famílias devem ser orientadas sobre quem é o responsável por atender cada assunto, quais canais acionar, e qual será o prazo das respostas.
O WhatsApp na relação escola e família é um capítulo à parte. A dinâmica do canal é diferente, pois as mensagens circulam rápido e sem ordem, o que pode dar origem a informações mal interpretadas. Portanto, o aplicativo deve ter regras específicas, e ser gerenciado por membros da gestão, não por professores.
Nos casos de reclamações que escalam, docentes devem ter uma rede de apoio e canais de escuta ativa. Ou seja, não devem conduzir todo o contato com os pais.
“Prevenir o esgotamento começa por incluir os professores nessa rede [de proteção] e por não deixá-los sozinhos na mediação com as famílias. A coordenação deve assumir as conversas mais duras, e o professor precisa saber a quem recorrer”, indica Pereira.
Leia a matéria completa na CNN Brasil
Para conhecer mais detalhes sobre o levantamento do Great Place to Study Brasil e ver a avaliação completa de Ivan Pereira, CEO da Mind Lab, acompanhe na íntegra a reportagem “Dia do Professor: atrito com famílias e cansaço emocional ampliam desafios”.




