As IAs já estão presentes nas salas de aula, nas ferramentas de planejamento docente, nas plataformas de aprendizagem e nos debates sobre políticas públicas educacionais. O seu uso é tão intenso nesses espaços que o ChatGPT já chegou a perder alunos durante as férias escolares.
Logo, é de se supor que é impossível proibir a tecnologia. Ela já ocupou seu espaço – e esse espaço deve ficar cada vez maior nos próximos anos. A alternativa é discutir o impacto da Inteligência Artificial na educação em todos os seus âmbitos.
O Mind Talks, podcast da Mind Lab, recebe o professor Israel Batista para entender como gestores e professores devem se adaptar à nova realidade. Ele é membro do Conselho Nacional de Educação, mestre em Políticas Públicas e Governo, ex-deputado federal e relator de políticas nacionais ligadas à educação digital e à inteligência artificial no Brasil.
O Mind Talks é o podcast que reúne as principais vozes que transformam a educação brasileira. Você pode acompanhar nosso novo episódio no YouTube e Spotify, ou ler abaixo um resumo expandido.
A transformação histórica proporcionada pela IA
Para Israel Batista, a Inteligência Artificial na educação representa uma transformação comparável à Revolução Industrial. Assim como o maquinário a vapor reorganizou o trabalho, a IA generativa está reorganizando o modo como a sociedade processa informação e produz conhecimento.
Diferentemente de outras ferramentas, os assistentes de IA são projetados para serem acessíveis e aplicáveis a praticamente qualquer contexto. Elas nem sempre geram respostas corretas e factuais, mas criam a impressão de estarem fazendo precisamente isso.
Na relação Inteligência Artificial e aprendizagem, diversas instâncias são afetadas:
- Mercado de trabalho: profissões inteiras estão sendo redefinidas pela automação. Preparar estudantes para um mercado que ainda não existe e está sofrendo disrupções diversas é altamente desafiador;
- Políticas públicas: decisões sobre infraestrutura digital, formação de professores e alterações de currículo precisam ser tomadas com velocidade, mas sem abrir mão de equidade;
- Aprendizagem: a IA oferece diagnósticos precisos e personalizados, mas também pode resultar em “atalhos cognitivos” que prejudicam o aprendizado;
- Desigualdade digital na educação: escolas bem estruturadas terão acesso às melhores ferramentas e saberão usá-las estrategicamente. Escolas com menos recursos correm o risco de ficar sem acesso ou sem orientação, ampliando uma brecha que já é grave.
O papel da Inteligência Artificial na educação
A relação entre inteligência artificial e aprendizagem é mais complexa do que parece. A IA não substitui o ensino e nem automatiza a aprendizagem. Se usada corretamente, ela amplia a capacidade de avaliação dos professores e o protagonismo dos estudantes.
Mas, para que esse papel seja cumprido, a tecnologia educacional precisa chegar às escolas com intencionalidade pedagógica.
A educação já passou por este desafio antes. Os smartphones e as redes provocaram o mesmo entusiasmo inicial. Mas o que vimos depois foi uma série de problemas difíceis de corrigir, como prejuízo na capacidade de se relacionar (uma das principais preocupações na relação entre socioemocional e Inteligência Artificial), à coordenação motora, à saúde mental e à atenção.
Com a IA, as políticas públicas educacionais têm a chance de fazer diferente.
“Não queremos repetir o erro cometido com celulares e redes sociais.”
IA nas escolas brasileiras não é apocalipse e nem solução mágica
Israel Batista identifica dois extremos que dominam o debate sobre inteligência artificial na educação. Segundo ele, ambos são equivocados:
- Visão alarmista: trata a IA como tecnologia destrutiva, capaz apenas de gerar riscos, e busca regular seu uso exclusivamente pela lógica da prevenção;
- Visão messiânica: enxerga a IA como panaceia, como se a simples adoção da tecnologia fosse transformar a educação e resolver problemas históricos com raízes muito mais profundas.
O correto é uma terceira via, a do equilíbrio. Reconhecer os riscos sem paralisar a adoção e aproveitar as oportunidades. E, sobretudo, garantir que o uso da Inteligência Artificial na educação seja sempre orientado por profissionais capacitados.
<h3>Intencionalidade pedagógica como ponto central
Ivan Pereira, CEO da Mind Lab e anfitrião do Mind Talks, trouxe ao episódio o exemplo dos tablets distribuídos nas escolas brasileiras.
Quando o Tribunal de Contas perguntou qual era a intencionalidade pedagógica por trás do investimento, a resposta não estava clara. O equipamento havia chegado antes da formação, antes das diretrizes e antes da pergunta mais importante: como, exatamente, esse recurso vai existir dentro do processo de aprendizagem?
Essa lógica é o ponto de partida da visão que a Mind Lab defende: tecnologia é meio, não fim. Quando o meio não está subordinado a um projeto pedagógico sólido, o resultado é desperdício de tempo e dinheiro.
IA, aprendizagem e personalização
Um dos potenciais mais concretos da Inteligência Artificial na educação é a personalização. Algoritmos podem analisar grandes volumes de dados rapidamente, permitindo intervenções individualizadas como:
- Identificação de lacunas de aprendizagem, mapeando onde cada estudante trava, não apenas o resultado final;
- Ações mais rápidas, antes que a lacuna se torne um déficit acumulado;
- Personalização do ensino, ajustando ritmo e nível de complexidade para cada aluno;
- Prevenção da evasão escolar, devido à correção imediata do acúmulo de déficits de aprendizagem.
Essas possibilidades conectam a IA diretamente aos modelos de gestão educacional baseada em evidências.
A escola continua sendo um espaço humano
Escolas sempre serão espaços de convivência. Isso não muda com a chegada da IA. A formação cidadã exige experiências que nenhuma ferramenta pode mediar, não importa quão bom seja o projeto de educação digital.
Aprender, no sentido pleno da palavra, envolve:
- Lidar com ideias que contradizem as próprias crenças;
- Encontrar soluções em situações de discordância real;
- Interagir harmoniosamente com pessoas com ritmos e perspectivas distintas;
- Desenvolver a capacidade de se colocar no lugar do outro;
- Produzir algo junto, com toda a fricção e o aprendizado mútuo que isso implica.
“A inteligência artificial traz o risco concreto de um estudante entregar um trabalho impecável sem aprender absolutamente nada.”
A Importância da formação docente
A formação docente é a grande medida para o futuro da educação brasileira. Segundo Israel, cerca de 60% do desempenho dos estudantes dependem diretamente da qualidade do professor.
Nenhuma tecnologia, incluindo a Inteligência Artificial na educação, tem impacto comparável a um profissional bem formado e bem valorizado.
As principais prioridades devem ser:
- Reformulação das licenciaturas: os cursos de formação inicial precisam ser repensados de forma radical. A estrutura atual não prepara professores para mediar o uso de tecnologias com intencionalidade pedagógica.
- Valorização docente: formação sem valorização não sustenta o ciclo. O professor precisa ser tratado como profissional estratégico, com salários e condições de trabalho à altura do papel que exerce.
- Repensar o papel do professor no processo de aprendizagem: o professor não é um transmissor de conteúdo substituível por uma tela. É o mediador que torna a aprendizagem possível.
Acompanhe o lançamento do episódio nas redes sociais e YouTube da Mind Lab. Enquanto isso, explore os demais conteúdos do blog Ponto de Impacto para entender como a Mind Lab atua na realização de projetos que adotam tecnologias educacionais com intencionalidade e responsabilidade.
🎙️ EPISÓDIOS DO MIND TALKS
- Mind Talks EP. 08: a próxima década da educação, com Suely Menezes
- Mind Talks EP. 07: como a PPP escolar pode elevar a qualidade da educação pública
- Mind Talks Ep.06: Inteligência Artificial na educação, com o professor Israel Batista
- Mind Talks EP. 05: Gestão educacional baseada em evidências e foco no aluno
- Mind Talks EP. 04: socioemocional na formação continuada de professores
- Mind Talks EP. 03: qualidade na gestão e inovação na educação pública em Angra dos Reis
- Mind Talks EP. 02: Entendendo as Parcerias Público-Privadas na educação (PPPs) com Alexandre Pessatte
- Mind Talks EP. 01: Educação socioemocional e políticas públicas com Mozart Neves Ramos




