O número de projetos de parcerias público-privadas voltadas à infraestrutura escolar saltou de cerca de 57, em 2023, para mais de 150 atualmente em estruturação no Brasil. O movimento cresceu no mesmo período em que o Ensino Médio confirmou, mais uma vez, sua posição como a etapa mais frágil da educação básica: no IDEB 2025, divulgado pelo MEC e pelo Inep em 5 de agosto de 2026, nenhum dos 27 estados brasileiros atingiu a meta de 5,2 pontos fixada para essa fase, algo inédito desde que o índice existe.
Essas duas curvas, a da estagnação escolar e a da expansão de contratos privados de infraestrutura, não são coincidência. Este artigo explica o que os números do Ideb revelam sobre o Ensino Médio, por que a infraestrutura física das escolas voltou ao centro do debate público e onde esse tipo de contrato encontra seus limites.
Resumo rápido dos números
- Nota nacional do Ensino Médio (pública + privada): 4,5, recorde da série histórica, mas abaixo da meta de 5,2.
- Rede pública: 4,3. Rede privada: 5,8. Diferença de 1,5 ponto, a maior entre todas as etapas avaliadas.
- Taxa de aprovação: subiu de cerca de 70,6% para 94,3% em duas décadas.
- Aprendizagem adequada em Matemática: 7,3% dos estudantes em geral, 3,6% na rede pública.
- Municípios com Ideb abaixo de 5: caiu de 4.410 (2005) para 442 (2025).
- Projetos de PPPs educacionais em estruturação no país: de 57 (2023) para mais de 150 atualmente.
Por que a infraestrutura escolar virou pauta de governo e mercado ao mesmo tempo?
O número de PPPs de infraestrutura escolar em estruturação no Brasil passou de cerca de 57, em 2023, para mais de 150 atualmente, segundo levantamentos do setor citados em reportagem da Veja. O crescimento acompanha um diagnóstico que pesquisas sobre evasão no Ensino Médio, entre elas as do Todos Pela Educação, repetem há anos: prédios malconservados, somados a fatores como renda familiar baixa e um currículo pouco conectado com a realidade do estudante, ajudam a empurrar adolescentes para fora da escola antes de concluir a etapa.
O exemplo mais recente e de maior escala é o de Minas Gerais. Em março deste ano, o fundo IG4 BTG Pactual Health Infra venceu, na B3, o leilão da PPP de infraestrutura escolar do estado, com proposta de contraprestação mensal de R$ 22,35 milhões, 14,17% abaixo do teto fixado no edital. O contrato tem duração de 25 anos, investimento total estimado em R$ 5,1 bilhões e prevê reforma, manutenção e operação de serviços não pedagógicos como limpeza, segurança e fornecimento de água, energia e gás em 95 escolas de 34 municípios mineiros, beneficiando cerca de 70 mil estudantes. A gestão pedagógica, incluindo currículo e contratação de professores, permanece integralmente sob responsabilidade da Secretaria de Estado de Educação.
Ao lançar o edital, o secretário de Educação de Minas Gerais, Rossieli Soares, definiu a iniciativa como “a maior ação do tipo no Brasil” e afirmou que a proposta pode servir de modelo para outras redes, liberando os profissionais da educação para se dedicarem integralmente ao ensino. Ivan Pereira, CEO da Mind Lab, reforça essa separação de papéis como o ponto central desse tipo de contrato: “As escolas continuam públicas. O Estado mantém o controle pedagógico e contratual.” Para o executivo, o que se terceiriza é a operação da infraestrutura, nunca o ensino, e o programa político-pedagógico da rede precisa continuar sendo uma decisão do próprio governo. É esse desenho contratual, sustentado por avaliações baseadas em evidências dos resultados de parcerias público-privadas na educação, que a Mind Lab aponta como modelo replicável para outros estados.
O que os números do IDEB 2025 mostram sobre o Ensino Médio?
Enquanto o mercado de PPPs se expande, o retrato pedagógico da etapa segue exigindo atenção. A nota nacional do Ensino Médio, somando redes públicas e privadas, ficou em 4,5, ante 4,3 em 2023. Isolando a rede pública, o resultado cai para 4,3, contra 5,8 da rede privada, uma diferença de 1,5 ponto que é a maior entre todas as etapas da educação básica avaliadas pelo Ideb.
No recorte por estado, o Paraná manteve a liderança nacional pela terceira edição seguida, com 5,1 pontos, a apenas 0,1 da meta. Ainda assim, nenhuma unidade da federação cruzou a linha dos 5,2 pontos fixada há quase duas décadas para aproximar o país da média de desempenho de países desenvolvidos. No recorte municipal, o número de cidades com Ideb abaixo de 5 caiu de 4.410 em 2005 para 442 em 2025. Segundo a secretária de Educação Básica do MEC, Kátia Schweickardt, cerca de 70% desses municípios registraram algum avanço no período, embora em ritmo inferior ao projetado pelas metas do Plano Nacional de Educação.
Esse contraste, entre o Ensino Médio e os demais níveis, chama atenção porque os Anos Iniciais do Ensino Fundamental superaram a meta nacional em 2025, com 6,3 pontos ante um alvo de 6,0, e os Anos Finais, embora também não tenham cumprido o objetivo fixado para a etapa, avançaram de forma mais consistente. O Ensino Médio, ao contrário, segue sem bater a meta desde 2013.
O que explica o descompasso entre aprovação e aprendizagem?
Parte da resposta está na composição do próprio índice, que combina taxa de aprovação e desempenho em Língua Portuguesa e Matemática. Nas últimas duas décadas, a aprovação no Ensino Médio saltou de cerca de 70,6% para 94,3%. O ganho de proficiência não seguiu a mesma curva: apenas 7,3% dos estudantes concluem a etapa com aprendizagem considerada adequada em Matemática, percentual que cai para 3,6% quando o recorte é só a rede pública, segundo dados tratados pelo Todos Pela Educação.
Questionado sobre esse descompasso durante a coletiva de imprensa, o presidente do Inep, Manuel Palácios, afirmou que o conjunto de evidências disponível não sugere manipulação de resultados por parte das redes de ensino. O ministro da Educação, Leonardo Barchini, reconheceu a tensão nos dados, mas defendeu uma leitura mais cautelosa: “a melhoria do fluxo veio acompanhada da melhora da proficiência em termos gerais”. Ele também admitiu que o país já removeu, aos poucos, os dois primeiros gargalos históricos da educação básica, acesso e fluxo escolar, mas que o terceiro segue em aberto, e chamou o Ensino Médio de “maior desafio” da educação básica brasileira.
Infraestrutura resolve, mas não é sinônimo de aprendizagem
É justamente nesse ponto que executivos do setor de PPPs educacionais reconhecem os limites do próprio modelo que ajudam a construir. Ivan Pereira descreve o arranjo que predominou por décadas como um modelo de “tijolos e cimento”: eficaz para resolver a precariedade física das escolas, mas que deixa em aberto a pergunta que mais importa, a de saber se os alunos estão de fato aprendendo mais.
O executivo dimensiona a escala do investimento ainda necessário no país, ao redor de R$ 800 bilhões para tornar as escolas públicas aptas à educação em tempo integral. Segundo ele, o custo de licitar anualmente essas necessidades já é oneroso para o poder público, e o modelo de PPP permite que a gestão saia da lógica de ciclos de governo e passe a operar em ciclos de projeto de Estado. Para Pereira, o argumento não é apenas financeiro: reduzir a desigualdade educacional no país passa por esse vetor de atuação, e a companhia posiciona sua atuação em Parcerias Público-Privadas como complementar ao trabalho pedagógico da rede pública, parte de um movimento que a própria empresa descreve como a expansão das PPPs para além do “cimento”, rumo à educação socioemocional.
Falta uma prova concreta até a próxima rodada do índice, prevista para 2027: menos de um em cada dez estudantes do Ensino Médio da rede pública domina hoje o conteúdo esperado de Matemática, e nenhum contrato de infraestrutura, por maior que seja, resolve esse número sozinho. O caminho que a Mind Lab defende, detalhado em conteúdos como o episódio do Mind Talks sobre como a PPP escolar pode elevar a qualidade da educação pública, é tratar reforma predial e metodologia pedagógica como frentes que avançam juntas, não como etapas sequenciais.
Prédio novo sem projeto pedagógico consistente tende a produzir o mesmo resultado de sempre: uma escola melhor por fora, com o mesmo gargalo de aprendizagem por dentro. O Ideb 2025 deixa um recado direto para quem planeja a próxima rodada de contratos de infraestrutura escolar: prédio bom é ponto de partida, não linha de chegada.
Perguntas frequentes sobre o IDEB 2025 no Ensino Médio
Qual foi a nota do IDEB 2025 no Ensino Médio?
A nota nacional, somando redes públicas e privadas, chegou a 4,5 pontos, ante 4,3 em 2023. A rede pública, isoladamente, também ficou em 4,3, contra 5,8 da rede privada.
Algum estado bateu a meta do Ideb no Ensino Médio em 2025?
Não. Pela primeira vez desde a criação do índice, nenhuma das 27 unidades da federação atingiu a meta de 5,2 pontos. O Paraná, líder do ranking, ficou em 5,1.
Quantas PPPs de infraestrutura escolar existem no Brasil hoje?
Mais de 150 projetos estão em estruturação ou execução, contra cerca de 57 em 2023. O contrato de Minas Gerais, de R$ 5,1 bilhões e 25 anos de duração, é o mais recente e de maior escala do país.
Por que a aprovação sobe, mas a nota do Ideb no Ensino Médio avança pouco?
Porque o ganho de proficiência em Língua Portuguesa e Matemática não acompanhou o ritmo do aumento na taxa de aprovação, que passou de cerca de 70,6% para 94,3% em duas décadas.
Infraestrutura escolar melhor é suficiente para elevar o Ideb do Ensino Médio?
Não sozinha. Reformar e manter prédios resolve parte do déficit histórico das escolas públicas, mas o Ideb 2025 mostra que o gargalo de aprendizagem em Matemática segue baixo mesmo em redes que já receberam investimento em infraestrutura, o que reforça a necessidade de combinar reforma física com metodologia pedagógica.




