Santana de Parnaíba fechou o ciclo do Ideb 2025 com nota 6,7 nos anos iniciais do Ensino Fundamental da rede pública municipal. O resultado, divulgado pelo Ministério da Educação e pelo Inep em 5 de agosto de 2026, supera a média geral do estado de São Paulo, que somando as redes estadual, municipal e privada chegou a 6,6, e a média nacional da rede pública, de 6,1. É também o terceiro ciclo seguido de crescimento: o município saiu de 6,10 em 2021 para 6,44 em 2023 antes de alcançar a marca atual.
A alta acontece em um cenário nacional no qual boa parte do avanço do Ideb ainda é explicada pela melhora do fluxo escolar, e não necessariamente por mais aprendizagem. Em Santana de Parnaíba, os dois componentes do índice cresceram juntos: aprovação de 100% nos anos iniciais e nota padronizada de 6,93 em Matemática, disciplina em que o Brasil historicamente tem mais dificuldade. Parte dessa combinação tem relação direta com um trabalho que a rede mantém desde 2017, quando passou a integrar ao currículo o Programa Mente Inovadora, metodologia de educação socioemocional da Mind Lab que hoje atende cerca de 20 mil estudantes da rede municipal.
Os números do Ideb 2025 na rede municipal
O Ideb combina duas variáveis: a proficiência dos estudantes em Língua Portuguesa e Matemática, medida pelo Saeb, e a taxa de aprovação apurada pelo Censo Escolar. Nos anos iniciais (1º ao 5º ano), a rede municipal somou nota padronizada de 6,93 em Matemática e 6,52 em Português, com aprovação de 100% dos estudantes matriculados. Nos anos finais (6º ao 9º ano), o índice chegou a 5,4, resultado de 5,44 em Matemática, 5,53 em Português e aprovação de 99%. No Ensino Médio, a nota se manteve em 4,5, com 4,42 em Matemática, 4,71 em Português e 99% de aprovação.
| Etapa | Ideb 2021 | Ideb 2023 | Ideb 2025 |
|---|---|---|---|
| Anos iniciais (1º ao 5º ano) | 6,10 | 6,44 | 6,73 |
| Anos finais (6º ao 9º ano) | n/d | 5,30 | 5,40 |
| Ensino Médio | 5,00 | 4,50 | 4,50 |
Fonte: QEdu/Inep, rede pública municipal.
Como Santana de Parnaíba se compara à região
A dimensão do avanço fica mais clara ao lado dos municípios vizinhos. Entre 2023 e 2025, Barueri recuou de 6,4 para 6,3 nos anos iniciais, Osasco manteve os mesmos 6,3 e Cotia avançou de 6,0 para 6,2. Santana de Parnaíba foi o único município do grupo a superar a marca de 6,7, ficando também à frente de Itapevi, Cajamar, Carapicuíba e Jandira nessa etapa.
| Município (região metropolitana de SP) | Ideb 2023 | Ideb 2025 |
|---|---|---|
| Santana de Parnaíba | 6,44 | 6,73 |
| Barueri | 6,40 | 6,30 |
| Osasco | 6,30 | 6,30 |
| Cotia | 6,00 | 6,20 |
Aprendizagem e fluxo escolar: por que a composição da nota importa
Um índice de aprovação de 100% costuma levantar uma pergunta direta: os estudantes aprenderam ou apenas avançaram de ano? O Saeb responde a essa pergunta em Santana de Parnaíba. A nota de 6,93 em Matemática nos anos iniciais fica bem acima da média nacional da rede pública, de 6,1, o que indica que a ausência de reprovação não custou qualidade de ensino.
No panorama nacional o quadro é mais desigual. Segundo o Inep, o Ideb da rede pública brasileira subiu de 5,7 para 6,1 nos anos iniciais e de 4,7 para 5,0 nos anos finais entre 2023 e 2025. Ainda assim, uma análise do Todos Pela Educação citada pelo portal Siminova aponta que a proficiência de Matemática do 9º ano na rede pública, em 2025, ainda está abaixo do nível registrado em 2019. O crescimento nacional existe, mas caminha mais rápido no fluxo do que na aprendizagem, o que torna o caso paulista um contraponto interessante para gestores de outras redes: aprovação plena e proficiência em alta, na mesma etapa, no mesmo ciclo.
Um ciclo de investimento que antecede o resultado
O salto do Ideb não nasce em um único ano. Ao longo da última década, a rede pública municipal ampliou o número de unidades escolares e investiu em recursos pedagógicos e formação continuada de professores, segundo reportagens da imprensa regional sobre a evolução da educação em Santana de Parnaíba. Infraestrutura física é condição necessária, mas os números da própria região mostram que ela não é suficiente por si só: municípios vizinhos com orçamento comparável tiveram oscilações nos anos finais nos últimos ciclos, o que reforça que prédio novo e resultado pedagógico não avançam automaticamente juntos.
Desde 2017, a educação socioemocional integra o currículo
Um dos fatores que a rede aponta como parte dessa trajetória é a adoção do Programa Mente Inovadora, metodologia de jogos de raciocínio e mediação pedagógica desenvolvida pela Mind Lab. A empresa, estabelecida no Brasil em 2006, hoje presente em mais de 10 mil escolas públicas e privadas, com cerca de 220 mil professores formados no país. Em Santana de Parnaíba, o programa integra o currículo oficial desde 2017.
O lançamento de 2026 e a escala do MenteInovadora
Em 27 de janeiro de 2026, a rede ampliou a aplicação do programa: a metodologia passou a estar presente em 55 escolas municipais, da Educação Infantil ao Ensino Fundamental I, atendendo cerca de 20 mil estudantes e mais de 650 professores capacitados. O momento foi parte de uma mudança na gestão pública, que passa a tratar o desenvolvimento socioemocional como política estruturante do planejamento escolar, e não como atividade complementar.
Na prática, o Programa Mente Inovadora combina jogos de raciocínio, como Mancala, Hora do Rush e Damas Chinesas, com métodos metacognitivos, ferramentas que ajudam o estudante a organizar o próprio pensamento diante de um problema. O professor atua como mediador da reflexão, não como um simples aplicador de conteúdo. A abordagem tem base nos estudos de Reuven Feuerstein sobre aprendizagem mediada e na teoria das inteligências múltiplas de Howard Gardner, referências recorrentes na literatura sobre desenvolvimento socioemocional na escola.
Para o CEO da Mind Lab, Ivan Pereira, o país ainda concentra boa parte do investimento educacional na construção de prédios e deixa em segundo plano a aprendizagem em si. Em entrevista à Poder360, ele defendeu que é preciso ir além da infraestrutura física, “(…) de enfrentar não só o deficit estrutural, mas o deficit de aprendizagem”. Pereira também reforça que a metodologia não substitui o trabalho docente. Segundo ele, o professor continua sendo a peça que decide se um jogo de tabuleiro se transforma em aprendizagem ou permanece apenas entretenimento.
Anos finais e Ensino Médio: a próxima fronteira
Nem toda etapa acompanhou o mesmo ritmo dos anos iniciais. Nos anos finais do Ensino Fundamental, a nota da rede pública municipal passou de 5,3 para 5,4 entre 2023 e 2025, uma variação discreta diante do salto de 0,3 ponto registrado na etapa anterior. O padrão não é exclusivo de Santana de Parnaíba: a transição do 5º para o 6º ano, quando o estudante deixa de ter um professor generalista e passa a ter vários professores especialistas, é apontada nacionalmente como um dos pontos de maior perda de desempenho no sistema educacional brasileiro. A média da rede pública nos anos finais, em todo o país, chegou a 5,0 em 2025, segundo o Inep.
No Ensino Médio, a nota da rede municipal se manteve em 4,5, repetindo o resultado de 2023. É a etapa mais desafiadora também no cenário nacional: a rede pública brasileira registrou 4,3 em 2025, distante da meta histórica de 5,2 que constava no Plano Nacional de Educação encerrado naquele ano. Para essa faixa etária, a Mind Lab aposta em ferramentas ligadas ao projeto de vida do estudante, entre elas o Método da Filmadora, que estimula a projeção de cenários futuros como motivação para decisões no presente, uma das dez competências gerais previstas na BNCC.
O que fica da trajetória de Santana de Parnaíba
O caso de Santana de Parnaíba não resolve, por si só, o desafio nacional descrito pelo Todos Pela Educação, de que o crescimento do Ideb ainda depende mais do fluxo escolar do que da aprendizagem real. Resolve uma questão menor e mais prática: é possível manter 100% de aprovação sem abrir mão de proficiência, desde que a rede trate aprendizagem cognitiva e desenvolvimento socioemocional como parte do mesmo problema, sustentado ciclo após ciclo. Os números dos anos finais e do Ensino Médio mostram que essa equação ainda precisa avançar nas etapas seguintes. O histórico dos anos iniciais, por outro lado, mostra que a combinação entre continuidade de política pública e metodologia baseada em evidências produz efeito medível, um ciclo do Saeb atrás do outro.




