A rede estadual do Acre fechou o Ideb 2025 com nota 6,5 nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, o maior valor de toda a série histórica do indicador, iniciada em 2005. O resultado supera a média nacional da rede pública, de 6,1, e consolida uma trajetória de crescimento que já dura três ciclos avaliativos: 5,7 em 2021, 6,1 em 2023 e 6,5 em 2025. Os dados constam da divulgação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025, feita pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em 5 de agosto de 2026, no mesmo ciclo em que o indicador completou 20 anos.
Um ponto importante: O Brasil também fechou 2025 com os melhores números da série histórica em todas as etapas: 6,3 nos Anos Iniciais (meta era 6,0), 5,3 nos Anos Finais (meta de 5,5, não atingida) e 4,5 no Ensino Médio (meta de 5,2, também não atingida). Para o ministro da Educação, Leonardo Barchini, em balanço do Ideb 2025 divulgado pelo Inep, o país fez o que precisava até aqui, mas o próximo desafio é “a melhoria da aprendizagem”. É dentro desse cenário nacional de avanço real, mas ainda incompleto, que o desempenho do Acre ganha relevância analítica. O estado cresceu, e cresceu mais do que a média do país, justamente na etapa que define a alfabetização.
Como parceira do Governo do Acre, a Mind Lab acompanha de perto esse resultado. Ficamos felizes com o desempenho da rede estadual e por termos contribuído para esse avanço por meio da aplicação do Programa Mente Inovadora em escolas da rede.
O que os números do Ideb 2025 mostram sobre o Acre
Antes de interpretar as causas do resultado, vale entender a origem exata dos números, porque o Ideb do Acre aparece em mais de uma versão nos dados oficiais, e cada uma responde a uma pergunta diferente.
Quando o Inep divulga o “Ideb do Acre” de forma agregada, o número reúne escolas estaduais, municipais, federais e privadas ao mesmo tempo. Nessa leitura ampla, o estado foi de 5,8 para 6,3 nos Anos Iniciais entre 2023 e 2025, e de 4,8 para 4,9 nos Anos Finais. Considerando apenas a rede pública do estado (redes estadual e municipal somadas, sem as escolas privadas), o resultado passou de 5,7 para 6,2 nos Anos Iniciais, de 4,7 para 4,8 nos Anos Finais e de 3,9 para 4,0 no Ensino Médio, segundo o balanço do Ideb 2025 no Acre publicado pelo Inep.
Já quando se isola apenas a rede estadual, ou seja, as escolas administradas diretamente pela Secretaria de Estado de Educação e Cultura (SEE), sem misturar com as redes municipais, o número sobe para 6,5 nos Anos Iniciais, o melhor resultado da história do indicador no estado. Nos Anos Finais, a rede estadual chegou a 4,8, igualando o melhor resultado já obtido nessa etapa, registrado também em 2019 e 2021, e no Ensino Médio alcançou 4,0 pela primeira vez, depois de rondar entre 3,7 e 3,9 desde 2019, segundo apuração local dos resultados do Ideb 2025. Essa distinção entre “rede pública do estado” e “rede estadual” não é um detalhe técnico qualquer. É a diferença entre medir o sistema inteiro e medir especificamente a rede que a SEE administra, e por isso o número de 6,5 é o que melhor descreve a evolução das escolas sob gestão estadual direta.
Um ponto chama atenção nesse conjunto de dados: o Ensino Médio segue como a etapa mais frágil, tanto no Acre quanto no Brasil. Nenhuma das 27 unidades da Federação atingiu a meta nacional de 5,2 pontos para essa fase em 2025, e o Paraná, único estado a se destacar nas três etapas ao mesmo tempo, ficou a apenas um décimo do objetivo, com 5,1. O 4,0 alcançado pela rede estadual do Acre representa um avanço real diante da própria história do estado, mas ainda deixa claro que o desafio da aprendizagem se aprofunda conforme os estudantes avançam nas etapas escolares, um padrão que se repete em praticamente todo o país.
A parceria entre o Governo do Acre e a Mind Lab
O avanço da rede estadual está ligado a uma parceria que começou em 2023. Desde então, o Governo do Acre, por meio da Secretaria de Estado de Educação e Cultura (SEE), oferece aos estudantes da rede estadual o Programa Mente Inovadora, voltado aos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, e o Projeto de Vida, iniciativa para estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) que combina a metodologia da Mind Lab ao acesso à plataforma eduK. Em balanço sobre o ano letivo de 2024, a própria secretaria registrou que os alunos dos Anos Iniciais já tinham acesso ao Mente Inovadora quando o Projeto de Vida foi estendido também à EJA, segundo balanço divulgado pela Secretaria de Estado de Educação e Cultura.
O que conecta esse contrato ao resultado do Ideb 2025 é a estrutura do Mente Inovadora, construída sobre três frentes que operam ao mesmo tempo em sala de aula. A primeira são jogos de raciocínio, como damas, dominó e desafios de tabuleiro de autoria própria, usados como espaço controlado para que a criança teste hipóteses, lide com a frustração da derrota e exercite a memória de trabalho. A segunda são os métodos metacognitivos, um conjunto de heurísticas visuais (como o Método do Semáforo, para autorregulação, e o Método da Escada, para fragmentar um objetivo grande em etapas menores) que ajudam o estudante a organizar o próprio raciocínio antes de aplicá-lo a um problema de matemática ou a um texto de interpretação. A terceira é a mediação docente: o professor deixa de simplesmente aplicar conteúdo e passa a ajudar o aluno a perceber como o que aprendeu em um jogo se transfere para a vida escolar, um processo alinhado às dez competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Essa hipótese, a de que competências como autorregulação e planejamento têm efeito direto sobre o desempenho em provas padronizadas, não é uma afirmação isolada da empresa. Um estudo da Universidade de Yale sobre a metodologia da Mind Lab registrou ganhos de 50% a 121% em jogos de estratégia, além de melhorias em testes verbais e matemáticos. Uma pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em parceria com o Insper e o Instituto Ayrton Senna, por sua vez, identificou ganhos em raciocínio lógico, metacognição e desempenho em Matemática e Português entre estudantes do programa. A própria Mind Lab reporta, com base nesses achados, que as escolas que aplicaram o Programa Mente Inovadora em 2023 tiveram crescimento médio de 0,8 ponto no Ideb, quatro vezes acima da média nacional de evolução do indicador naquele ciclo. São referências que ajudam a explicar, do ponto de vista pedagógico, por que a aplicação consistente do programa consegue sustentar crescimento no Ideb por mais de um ciclo, em vez de picos isolados.
Importante observar que, no mesmo Estado é possível ver como o trabalho se comporta na rede municipal. Além do Governo do Acre, a Mind Lab mantém parceria direta com a capital Rio Branco. O caso local segue a mesma direção de impacto: a Mind Lab já registrava, em artigo publicado no primeiro semestre de 2026, a evolução do Ideb municipal entre 2021 e 2023 (de 5,7 para 6,4 nos Anos Iniciais), citada ao lado de redes como Piracicaba (SP). Os dados de 2025 confirmam a continuidade dessa curva: a rede municipal fechou o ano com 6,8, segunda melhor nota entre as capitais brasileiras, atrás apenas de Curitiba e Teresina, ambas com 6,9. “Nós vimos trabalhando desde sempre para atingir esse resultado”, disse a secretária municipal de Educação, Kelce Nayra Paes, à imprensa local.
Os fatores que sustentam a evolução do Acre nas últimas duas décadas
A trajetória do Acre no Ideb não começou em 2023. Desde a criação do indicador, a rede estadual de Anos Iniciais saiu de 3,3 em 2005 para 3,8 em 2007, 4,5 em 2009 e 5,2 em 2013, chegando a 6,2 em 2019, o levantamento histórico divulgado ao lado dos resultados de 2025. A pandemia interrompeu essa curva: o índice recuou para 5,7 em 2021, antes de retomar o crescimento e chegar aos 6,1 de 2023 e aos 6,5 de 2025. É essa recuperação ao longo de três ciclos, mais do que o resultado isolado de um único ano, que sustenta a leitura de que o avanço acreano tem base estrutural. Essa evolução se apoia em pelo menos três frentes de política pública que antecedem qualquer parceria privada.
A primeira é o acesso. Programas de interiorização como o Asas da Florestania, criado em 2005 em parceria com a Fundação Roberto Marinho, levam Ensino Fundamental e Médio a comunidades ribeirinhas e de difícil acesso, com professores que residem temporariamente nas localidades atendidas. O programa nasceu atendendo a sete municípios e hoje cobre a maior parte dos 22 municípios acreanos, incluindo uma versão voltada à primeira infância, o Asinhas da Florestania. Sem esse tipo de estrutura, boa parte da população rural do estado simplesmente não chegaria à etapa avaliada pelo Saeb.
A segunda frente é a preparação pedagógica direcionada. A SEE mantém o Caderno Ideb, material didático elaborado especificamente para trabalhar os descritores cobrados pelo Saeb com turmas de 4º, 5º e 9º ano, antes mesmo de esses alunos chegarem à série avaliada. Segundo a coordenadora do Núcleo de Pós-Alfabetização da secretaria, Gislaine Rocha, a lógica é antecipar o trabalho, “direcionando esforços aos quartos anos” que serão avaliados pelo Saeb no ciclo seguinte.
A terceira frente é a ampliação do tempo de permanência do aluno na escola. O estado encerrou 2025 com 36 escolas de tempo integral e anunciou a integralização de mais 25 unidades a partir de 2026, incluindo, pela primeira vez, escolas do campo. O secretário de Estado de Educação e Cultura, Aberson Carvalho, associou a decisão diretamente aos resultados: “a escola integral é sinônimo de qualidade, porque os números comprovam”, afirmou, ao anunciar a expansão. A diretora de Ensino da SEE, Gleice Souza, explicou que a mudança exige planejamento prévio de infraestrutura, equipe e organização pedagógica, conduzido de forma gradual para preservar a segurança das comunidades escolares atendidas.
Nenhum desses três fatores, acesso rural, preparação pedagógica dirigida ou tempo integral, é exclusivo do Acre. O que parece diferenciar o resultado do estado é a combinação deles com uma camada adicional de trabalho socioemocional, presente na rede estadual desde 2023 por meio da parceria com a Mind Lab. É essa sobreposição de política de infraestrutura, gestão pedagógica orientada por dados e desenvolvimento de funções executivas que a literatura sobre qualidade educacional tem apontado como o padrão mais consistente de redes que sustentam crescimento no Ideb por mais de um ciclo, em vez de picos isolados puxados apenas pela redução de reprovação.
O que vem a seguir: o Ensino Médio e o horizonte do novo PNE
O resultado de 2025 fecha um ciclo particular na história do Ideb. É a última edição do indicador calculada pela metodologia original, definida em 2007, já que o Inep instituiu, por meio da Portaria nº 26/2024, um grupo técnico dedicado a propor a atualização do índice, e uma comissão de assessoramento específica para conduzir esse processo, com apoio de dados do Saeb e do Censo Escolar. As edições de 2023 e 2025 não têm metas fixadas para si, mas seguem servindo de base para o novo ciclo de metas que o país deve pactuar em breve.
Esse novo ciclo já tem um marco legal: a Lei nº 15.388, de 14 de abril de 2026, que institui o Plano Nacional de Educação (PNE) para o decênio 2026-2036. A norma não cita o Ideb pelo nome, mas prevê, em sua Estratégia 5.9, a criação de um índice de qualidade com equidade que combine desempenho e fluxo escolar, integrado aos demais parâmetros do sistema nacional de avaliação da educação básica. Na prática, o compromisso de medir e divulgar bienalmente a evolução da aprendizagem brasileira segue de pé, mesmo que sob um desenho técnico ainda em construção.
Para o Acre, esse horizonte reforça uma pauta que os próprios números de 2025 já sinalizam: o trabalho de recomposição de aprendizagem concentrado nos Anos Iniciais precisa alcançar os Anos Finais e o Ensino Médio com a mesma intensidade. A experiência de Rio Branco, e de outras redes que aplicam desenvolvimento socioemocional de forma estruturada, sugere um caminho possível: estender ferramentas de autorregulação e planejamento, hoje concentradas na alfabetização, para o momento em que a evasão e o desengajamento costumam crescer. É nesse ponto que a conversa entre gestão pública, dados e metodologia pedagógica deixa de ser um balanço de resultados e passa a ser, de fato, um plano de trabalho para o próximo ciclo do Ideb.




